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Tabagismo na gestação

9 de janeiro de 2011

Fonte:www.gettyimages.com.br

O cigarro representa prejuízos que vão além do organismo materno: os efeitos sobre o desenvolvimento fetal podem ser inúmeros, desde o baixo peso ao nascer e partos prematuros até as mortes perinatais e súbita da criança.

A nicotina causa vasoconstrição dos vasos uterinos e placentários, provocando diminuição do fluxo sanguíneo, comprometendo, assim, a oferta de oxigênio e nutrientes para o feto. A exposição pré e perinatal à nicotina já foi relacionada a alterações da cognição e do desenvolvimento psicomotor e sexual no jovem.

O monóxido de carbono, também presente no cigarro, se liga a hemoglobina materna, formando a carboxihemoglobina, prejudicando o transporte de gases para o feto. Suas altas concentrações geram, portanto, hipóxia, o que leva ao aumento do processo de eritropoiese, implicando num aumento da viscosidade sanguínea na gestante e feto. Como conseqüência, maior risco de retardo de crescimento fetal, infarto cerebral no neonato e mau desempenho da placenta.

O cigarro pode, ainda, implicar em alterações funcionais respiratórias na infância, com risco aumentado de desenvolvimento de doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer e doenças cardiovasculares.

O tabagismo causa também a diminuição da capacidade fagocitária e alteração dos níveis de IgA, correlacionado-se ao maior risco ruptura da membrana e consequente abortamento. Outro fator que favorece a fragilidade da membrana placentária é a diminuição da concentração de vitamina C no líquido amniótico, expondo o feto e placenta a um intenso estresse oxidativo, além de comprometer a formação de colágeno.

Apesar de os maiores benefícios para o desenvolvimento do feto acontecerem se a interrupção do tabagismo ocorrer ainda no início da gravidez, a interrupção em qualquer momento, ou mesmo no após, tem significativo impacto positivo na saúde de toda a família.

Elemento tóxico: chumbo

3 de outubro de 2010

O chumbo (Pb) foi um dos primeiros metais pesados a ser identificado. Sua descoberta data de 3500 aC, no Egito. Este elemento tóxico é encontrado difundido no ambiente, em alimentos e bebidas. Nas plantas, pode ser encontrado graças à poluição ambiental, improvável que seja pela extração do solo.

As vias de contaminação são três: via cutânea, ingestão e inalação. A via primária de contaminação são os alimentos e, bons candidatos à contaminação são as frutas, os vegetais folhosos, cereais, moluscos e os vinhos. Para alguns trabalhadores, a via de contaminação é a inalação.

Assume-se que 30% do Pb inalado são absorvidos e, de 5 a 10% do Pb ingerido são absorvidos. Quando absorvido,entra na corrente sanguínea e alcança ossos e tecidos. Pode ser acumulado nos tecidos com o decorrer dos anos, principalmente nos ossos, na aorta, fígado, pulmão, rim, e no baço. É gradualmente excretado via bile no intestino delgado e eliminado pelas fezes. Entretanto, a principal via de excreção é urinária e, portanto, bom marcador bioquímico para avaliação de contaminação por este elemento tóxico é o chumbo urinário.

O sistema nervoso de crianças é muito sensível ao Pb e nos adultos, a exposição excessiva pode ocasionar neuropatologia periférica e/ ou crônica. Corriqueiramente, quando expostos, os adultos desenvolvem hipertensão. A síntese do heme também pode ser comprometida: o Pb, assim como o cádmio e o alumínio, possui afinidade por sítios de ligação enzimáticos, ocupando o local originalmente dos minerais, comprometendo, assim, cascatas de reações bioquímicas no organismo. Portanto, interfere na produção do heme e como consequência gera anemia e, interfere na fixação de cálcio nos ossos, comprometendo a formação óssea.

Além disso, o Pb é classificado como um carcinógeno. Sua toxicidade grave também pode acarretar aborto, esterilidade, mortalidade e morbidade neonatal.

A tolerância ao Pb varia conforme idade, formas, fontes e composição da dieta. As taxas de deposição, retenção e absorção dependem do tamanho da partícula e de sua forma físico-química. Crianças e gestantes são grupo de risco. Na gestação, pelo aumento da necessidade de cálcio, o processo de reabsorção óssea é estimulado e, no caso das mulheres contaminadas, há intensa liberação do chumbo, que pode ocasionar danos diversos tanto na mãe quanto no concepto.

Efeitos do álcool na gestação

29 de setembro de 2010

Fonte:www.gettyimages.com.br

A ingestão de bebidas alcoólicas no Brasil dobrou nos últimos cinco anos, sendo as mulheres e os jovens os maiores contribuintes deste processo. É coerente observar um aumento nos problemas relacionados a este acréscimo e, o binômio materno-fetal é, sem dúvida, um dos que mais sofrem com o abuso do álcool.

O álcool é uma substância teratogênica, ou seja, favorece a má formação fetal. No século XVIII, foi observado que crianças nascidas de mães que consumiam gim usualmente eram descritas como desatentas e fracas. Entretanto, apenas no início do século XX que se reconheceu os efeitos deletérios do álcool nos desfechos gestacionais.

Em 1973 foi descrita a Síndrome Alcoolica Fetal (SAF), uma condição irreversível, caracterizada por disfunções no sistema nervoso central, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, alterações de QI e comportamento e dismorfismo facial.  Foi proposto também o termo Efeitos Fetais do Álcool (EFA), para as crianças que não desenvolveram todas as características da SAF mas, que foram expostas a esta droga na vida intra-uterina e, de alguma forma, prejudicadas em seu desenvolvimento.

O álcool ingerido pela gestante atravessa a placenta e, então, o feto é exposto às mesmas concentrações do sangue materno. Entretanto, como a metabolização e eliminação do álcool é mais lenta,  a exposição fetal torna-se maior, tanto ao álcool não modificado (etanol) quanto ao seu metabólito acetaldeído. O etanol induz a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs), que reagem com estruturas celulares, prejudicando a formação fetal, assim como o acetaldeído, que também age inibindo a proliferação de diversos tecidos.

Os efeitos do álcool na gravidez são dependentes da quantidade consumida, da época da exposição, do estado nutricional e da capacidade de metabolização materna e fetal.  No primeiro trimestre de gestação, os efeitos mais comumente observados são de anomalias físicas e dismorfismo; no segundo trimestre, abortamento e; no terceiro, retardo do crescimento fetal.

Como a quantidade segura de álcool que uma gestante pode consumir não está definida na literatura, recomenda-se abstinência total durante este período fisiológico. Já foi constatado que o consumo de 20 gramas de álcool já é suficiente para provocar supressão da respiração e dos movimentos fetais. Portanto, ficamos na lei do quanto menos, melhor!

Anemia na gestação

23 de julho de 2010

Fonte:www.gettyimages.com.br

A gestação é caracterizada pelo aumento da demanda metabólica materna em decorrência de mudanças fisiológicas que visam garantir o adequado crescimento e desenvolvimento fetal, bem como as reservas biológicas necessárias ao parto, à recuperação pós-parto e ao processo de lactação. Durante este período, estoques insuficientes de micronutrientes ou a sua inadequada ingestão podem resultar em efeitos prejudiciais tanto para a mãe quanto para o feto e, dentre estes micronutrientes se destaca o ferro.

 A deficiência de ferro causa a anemia ferropriva que, do ponto de vista fisiológico, pode ser definida como um estado de deficiência de hemoglobina circulante no sangue para o transporte do oxigênio requerido para a atividade normal de um indivíduo, causando inadequada oxigenação tecidual resultante de uma deficiência na captação, transporte, distribuição e/ou liberação de oxigênio.

A anemia pode ser causada por ingestão inadequada de ferro, deficiência na sua absorção,  metabolização imperfeita, perdas agudas,aumento das necessidades e, ainda, pelo inadequado consumo de micronutrientes participantes da produção de hemoglobina, como as vitaminas A, B2, B6, B9, B12, C e, os minerais cobre e zinco.

A redução na concentração de hemoglobina na gestante resulta em aumento do débito cardíaco a fim de manter um fornecimento adequado de oxigênio via placenta às células fetais. As anemias maternas moderada e grave estão associadas a um aumento na incidência de abortos espontâneos, partos prematuros, baixo peso ao nascer e morte perinatal. Os efeitos no feto podem ser a restrição do crescimento intrauterino, prematuridade, morte fetal e anemia no primeiro ano de vida, devido às baixas reservas de ferro no recém-nascido.

A necessidade de ferro aumenta consideravelmente a partir da 14ª semana de gestação em decorrência da expansão das hemácias, do desenvolvimento do bebê e das estruturas placentárias. A absorção do ferro dietético, que é baixa no início da gestação, aumenta progressivamente chegando a triplicar por volta da 36ª semana. Entretanto, é inviável alcançar o aporte materno de ferro apenas por meio da dieta.

Logo, segundo o Ministério da Saúde, faz-se necessária a suplementação medicamentosa com 30mg/dia de ferro elementar a partir da 20ª semana de gestação para se suprir a recomendação de ingestão diária de 27mg. Numa dieta equilibrada consegue-se uma média de 6mg de ferro em cada 1000kcal consumidas. Portanto, para alcançarmos os 27mg de ferro apenas via alimentação, teríamos de ingerir uma dieta de quase 5000kcal, ou seja, resolveríamos um problema e conseguiríamos outro muito maior!  

Os efeitos da cafeína na gestação

5 de julho de 2010

Fonte:www.gettyimages.com.br

A cafeína, seja via alimentação ou medicação, faz parte da dieta da maioria das mulheres em idade reprodutiva, o que justifica as inúmeras pesquisas sobre sua ação no desenvolvimento fetal.

A depuração de cafeína na gravidez é mais lenta, dura em torno de sete horas, podendo chegar a onze horas. Este aumento da meia-vida coincide com o período em que o crescimento fetal é mais rápido e, um acúmulo desta substância poderia representar um risco para o desenvolvimento fetal.

Esta metilxantina tem ação transplacentária, sendo que quantidades substanciais atingem o líquido amniótico, sangue do cordão umbilical, plasma e urina dos conceptos. Durante o período fetal, há falta de enzimas necessárias para a biotransformação da cafeína, que produz diversos efeitos que podem influenciar o crescimento do neonato.

Especula-se que, por sua ação vasoconstritora, a cafeína possa interferir no suprimento de oxigênio para o feto, além de comprometer o direcionamento de nutrientes. Está bem estabelecido que esta metilxantina interfere na absorção de ferro, micromineral bastante demandado na gravidez.

A cafeína, por inibir a enzima fosfodiesterase, favorece o aumento dos níveis de AMPc que, por sua vez, pode comprometer no crescimento e desenvolvimento de células fetais. Ademais, dada a sua similaridade química com componentes do DNA, pesquisadores questionam sobre o potencial mutagênico da cafeína.

Estudos demonstram que o consumo seguro de cafeína na gestação é de 200mg/dia, alguns citam 300mg/dia e, outros não correlacionam seu consumo com o baixo peso ao nascer ou prematuridade. Todavia, se algumas pesquisas demonstraram correlação da cafeína com prejuízos na gestação, é mais prudente evitar o consumo desta substância durante este período fisiológico.

O uso de adoçantes na gestação é seguro?

1 de junho de 2010

Nos últimos anos, motivados pelo anseio de atingir padrões de beleza, muitas pessoas submetem-se a sucessivas dietas restritivas e cada vez mais lançam mão dos adoçantes. As mulheres representam um grupo especial sempre de olho na balança e, se preocupam muito com o ganho de peso, principalmente na gestação.

Os adoçantes são substitutos do açúcar que conferem sabor doce com menor número de calorias por grama. São constituídos por substâncias edulcorantes (que adoçam) e por um agente de corpo, que lhe conferem durabilidade, textura e boa aparência. Vários adoçantes atualmente comercializados contêm dois ou mais edulcorantes em suas fórmulas. Até os anos 80, sacarina, aspartame e ciclamato eram os únicos disponíveis para consumo. Atualmente, existem outras opções, como a sucralose, acessulfame-k, estévia, alitame, neohesperidina, neotame e taumatina, porém alguns ainda não disponíveis no Brasil.

Todos os adoçantes recebem uma recomendação de ingestão diária aceitável (IDA), definida como aquela (mg kg/dia) considerada inócua mesmo se o uso for continuado indefinidamente. Na gestação, os adoçantes que receberam boa avaliação pelo FDA  foram aspartame, sucralose, acessulfame-K e a estévia. Portanto, o uso de todas as outras opções deve ser desconsiderado pois, não são considerados produtos seguros para este período fisiológico.

Algumas considerações a respeito dos adoçantes permitidos na gravidez devem ser feitas: o aspartame é metabolizado em três outras substâncias: metanol, aspartato e fenilalanina.  O metanol, por sua vez, origina outras substâncias (formaldeído e ácido fórmico) que causam acidose e tem um potencial carcinogênico expressivo; o aspartato, em animais, favorece necrose neuronal, portanto, age no sistema nervoso central e; a fenilalanina pode se acumular em indivíduos portadores de fenilcetonúria sintomáticos ou não, favorecendo retardo mental e menor expectativa de vida. A sucralose, assim como o aspartame, pode desencadear crises de enxaqueca. Grande parte do produto ingerido não é metabolizada. A pequena quantidade absorvida é excretada por meio de urina e fezes. O acessulfame-K e a estévia não são metabolizados, sendo excretados integralmente pela urina.

É importante ressaltar que todas as substâncias ingeridas que não são nutrientes ou fitoquímicos, devem ser excretadas pelo organismo. Se essa capacidade de metabolização e excreção estiverem comprometidas, mesmo os adoçantes com o uso liberado na gestação, podem causar transtornos ao equilíbrio orgânico. Os adoçantes, portanto, independente do tipo de classificação do FDA são substâncias estranhas ao organismo e, para nos livrarmos deles, dependemos de vitaminas, minerais, substâncias bioativas e aminoácidos para que o processo de metabolização seja completo. Caso contrário, essas substâncias estranhas podem se depositar nas células de gordura, ativando respostas metabólicas indesejáveis.

Mais uma vez, só com a dieta equilibrada poderemos desfrutar dos benefícios destes produtos…

Quais as funções do folato na gestação?

27 de abril de 2010

Fonte:www.gettyimages.com.br

O esforço para garantir o sucesso de uma gestação representa uma das funções fundamentais da vida. Os objetivos são quatro: a saúde da mulher durante a gravidez, a saúde do feto, o bem-estar materno para possibilitar a nutrição do recém nascido e, a proteção contra desenvolvimento de doenças crônicas durante a vida adulta. Gestantes representam um grupo com muitas particularidades na composição de sua dieta. Em decorrência das novas demandas nutricionais, o estado anabólico, isto é, o crescimento de tecidos e desenvolvimento celular, é dinâmico e constante e promove ajustes contínuos em relação a diversos nutrientes. Dentre estes, destacam-se o folato, que pode ser encontrado principalmente em vegetais em tons verdes escuros.

A necessidade diária de folato da gestante é de 600mcg. Por meio de uma dieta saudável e equilibrada, consegue-se em torno de 400mcg. Então, faz-se necessária a suplementação do ácido fólico neste período da vida. O Ministério da Saúde recomenda a suplementação com 400mcg de ácido fólico até a 14ª semana de gestação, com o objetivo de prevenir defeitos de formação do tubo neural. O ideal seria começar esta suplementação três meses antes da gestação, porém, esta conduta nem sempre é viável. Devemos nos atentar ao fato de que a recomendação é de apenas 600mcg/dia, e não de 1mg, 2mg ou 5mg, como vemos em diversos suplementos por aí. Muitas vezes profissionais de saúde recomendam um excesso de ácido fólico que, dentre outros problemas, pode causar a diminuição da absorção de zinco, favorecendo sintomas que são ditos como “típicos” da gravidez, como o intestino preso e a queda de cabelo.

A função do ácido fólico vai além da sua participação na formação do sistema nervoso: para replicarmos DNA adequadamente necessitamos de substâncias conhecidas como grupo metil, que podem ser encontradas em nutrientes como a vitamina B2, vitamina B6, colina, betaína, serina, metionina e, no ácido fólico, que é o principal doador de grupo metil.

Logo, o ácido fólico está intimamente ligado a replicação de DNA e este processo ocorre todas as vezes que as células são multiplicadas,  ou seja, durante toda a vida, o que inclui também a vida intra-uterina. Por isso, grupos de pesquisadores defendem a suplementação deste nutriente durante toda a gestação. Mas, mais uma vez, devemos buscar o equilíbrio: tanto a falta quanto o excesso de grupos metis podem favorecer mutações epigenéticas (mudanças nos genes dependentes de fatores externos) no DNA. E, essas mutações, por sua vez, podem favorecer o desenvolvimento de doenças crônicas durante a vida adulta.

Portanto, durante a gestação, como em todas as fases da vida, a alimentação deve ser equilibrada, na medida: tanto a falta quanto o excesso podem implicar em prejuízos para o desenvolvimento da criança que podem perdurar durante toda a sua a vida e, então, caímos naquele velho jargão de que a culpa é da mãe…