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Leucina: muito mais que um aminoácido

13 de setembro de 2010

Fonte: www.gettyimages.com.br

A leucina, assim como a valina e isoleucina, é um aminoácido (aa) de cadeia ramificada (ACR). Os ACR representam aproximadamente 35% dos aminoácidos essenciais em proteínas musculares e, já foi demosntrado que sua suplementação pode influenciar o controle da massa muscular em diversas condições atróficas, como por exemplo, caquexia induzida por câncer ou SIDA e envelhecimento, inclusive na ausência de exercícios físicos. Também já foi postulado que o fornecimento de leucina isoladamente estimula a síntese protéica muscular tão efetivamente quanto a mistura dos três ACR.

O mTOR (mammalian Target of Rapamycin), proteína pertencente à família das fosfoinositidas (PI), exerce funções essenciais na fisiologia celular, regulando inúmeros processos vitais envolvidos na síntese de proteínas. O mTOR é ativado por diversos estímulos incluindo insulina, fatores de crescimento e nutrientes. Aa’s modulam positivamente o mTOR, sendo que a leucina é o aa mais eficiente na ativação do mTOR, na maioria das células.

A deficiência de nutrientes ou de energia modula negativamente mTOR. A falta de leucina causa, por exemplo, uma rápida inativação da sinalização de mTOR, sendo que nesta situação ocorre uma incapacidade da ativação por meio de fatores extracelulares, como a insulina. Baixos níveis celulares de ATP também modulam negativamente a sinalização do mTOR.

A insulina parece ser inefetiva na estimulação de síntese protéica enquanto a disponibilidade de aa’s estiver baixa, independente da dose de insulina. Cabe ressaltar que a administração oral de leucina produz ligeiro e transitório aumento na concentração de insulina sérica, fato este que age também de modo permissivo para a estimulação da síntese protéica induzida por este aminoácido.

Acerca da leucina e de suas propriedades gerais vale reforçar a relação existente com a leptina, um dos hormônios relacionados com a saciedade. A secreção deste hormônio é regulada em nível de tradução do mRNA por mTOR e seu agonista, leucina.

Já foi reportado que a suplementação com leucina é bastante segura, pois apresenta valor calórico mínimo, não estimula gliconeogênese e também não aumenta a taxa de filtração glomerular, como acontece, por exemplo, com a alanina. A ingestão de leucina pode ser útil para evitar a perda de massa magra em uma variedade de condições fisiopatológicas, inatividade física e reabilitação de traumas e cirurgias, quando se observa o fenômeno de resistência anabólica aos aa’s. Além disso, a suplementação deste aa pode ser utilizada como terapia coadjuvante no tratamento da obesidade, acentuando o metabolismo e estimulando a produção de leptina.

Portanto, a leucina não deveria ser vista simplesmente como um constituinte de proteínas, mas como um sinalizador na regulação de diversas funções celulares.

A cafeína como recurso ergogênico na atividade física

7 de julho de 2010

Não é de hoje que a utilização da cafeína como recurso ergogênico nutricional previamente à atividade física é explorada, particularmente, pelos praticantes de exercícios prolongados. Muitas pesquisas indicam que ela favorece alterações metabólicas e fisiológicas que culminam na melhora da performance atlética. Tanto que, neste ano, a ANVISA regulamentou sua venda como suplemento nutricional para atletas.

Com relação à força muscular, pesquisas recentes apontam um aumento da força acompanhado de uma maior resistência à instalação do processo de fadiga muscular após a ingestão de cafeína. Todavia, o foco principal da sua utilização são os exercícios de longa duração.

Neste tipo de atividade, a cafeína promove uma melhoria na eficiência metabólica dos sistemas energéticos durante o esforço, com maior utilização de gordura como fonte de energia e, consequentemente, menor oxidação do glicogênio, favorecendo o retardo da fadiga muscular, visto que a depleção de carboidratos é um fator limitante para o desempenho físico. Essa ação da cafeína, decorrente de sua interação com os receptores de adenosina, promove diminuição da percepção do esforço.

Além disso, foi observado in vitro que a cafeína favorece uma maior eficiência no processo de contração muscular, na medida em que torna o cálcio mais disponível para este processo, sendo que as fibras musculares do tipo I,  mais demandadas nas atividades de longa duração, são mais sensíveis a esta ação do que as fibras musculares do tipo II (de contração rápida).

A cafeína pode induzir a um efeito diurético, em decorrência do aumento dos níveis circulantes de catecolaminas. Todavia, este efeito foi observado apenas com a utilização de mega-doses. Logo, nas dosagens de 3 a 6mg por kg de peso corporal, em que se verificam seus efeitos ergogênicos, não se constatou o comprometimento do estado de hidratação corporal, o que também poderia afetar negativamente o desempenho físico.

É importante ressaltar que, para que você desfrute dos benefícios desta metilxantina, sua dieta deve ser adequada as suas necessidades.  Além disso, fatores como aptidão física, habituação à cafeína e tipo de atividade física devem ser considerados na definição da dosagem de cafeína a ser utilizada.

Suplementação de óxido nítrico?

21 de junho de 2010

O óxido nítrico (NO), gás solúvel produzido em nosso organismo que é rapidamente destruído pelo oxigênio, possui diversas funções, podendo ser benéfico ou potencialmente tóxico, conforme sua concentração e depuração tecidual. Como toxina, o excesso de NO, dentre outros problemas, pode favorecer enxaqueca, diabetes tipo I, choque séptico e problemas renais. Fisiologicamente, ele está envolvido na resposta do sistema imunitário, na fixação da memória tardia, peristaltismo, relaxamento dos vasos sanguíneos e vasodilatação. E, por apresentar esta última função, é uma substância que vem sendo amplamente explorada pela Nutrição Esportiva.

O NO é produzido no organismo na presença de cálcio e vitamina B3, a partir dos aminoácidos arginina e citrulina. A arginina tem como principais fontes alimentares a soja e a quinoa. Já a citrulina pode ser encontrada na melancia, principalmente em sua camada branca da casca, que tem o consumo descartado pela maioria das pessoas.

Existem diversos suplementos no mercado que erroneamente nos induzem a achar que estamos ingerindo óxido nítrico. Na verdade, a maioria deles possui em sua composição os precursores deste gás, como a arginina e citrulina, além de sinergistas como a ioimbina e o zinco. Cabe ao organismo direcionar tais precursores  para a produção de NO. No entanto, é importante destacar que estes precursores participam de diversas vias bioquímicas e, nem sempre, há a garantia de aumento da produção do NO.

Durante a atividade física, em decorrência do aumento da respiração celular, há um aumento da produção de radicais livres. Estes, por sua vez, podem reagir com o NO, formando peroxinitrito, que é um radical livre danoso ao organismo, sem efeito vasodilatador, que potencializa a lesão inflamatória em células vasculares. Ou seja, mais uma vez, boa capacidade de produção de NO não necessariamente significa aumento da capacidade de vasodilatação: muito pelo contrário: o excesso da suplementação de arginina pode favorecer a produção de NO indutível que tem efeito vasocontritor, aumentando a pressão arterial.

Não podemos nos preocupar apenas em favorecer produção de NO. É essencial que forneçamos ao organismo uma defesa antioxidante eficiente. Diversos são os nutrientes que possuem esta função. Todavia, quando se fala em NO, destaca-se como antioxidante a vitamina C, que possui a importante função de reciclar o peroxinitrito, permitindo a sua transformação, novamente, em NO.

Logo, antes de se pensar sobre a suplementação de substâncias envolvidas com a vasodilatação, é essencial que se garanta uma dieta saudável, com o fornecimento de todos os nutrientes essenciais à homeostase orgânica.

Creatina: definindo suas ações no organismo

30 de maio de 2010

A creatina, formada por glicina, metionina e arginina, é muito solicitada nos exercícios de curta duração, já que constitui uma reserva de energia para a rápida regeneração de ATP nas células musculares. A suplementação de creatina foi proibida no Brasil em 2005 e, em 2010 a ANVISA revogou esta resolução, permitindo a comercialização deste suplemento para os atletas de exercícios de alta intensidade. Ainda não há comprovação consistente da eficácia suplementação de creatina em esportes de endurance.

Inicialmente a suplementação com creatina favorece uma hipertrofia sarcoplasmática, ou seja, como é uma substância osmoticamente ativa, promove a retenção de água nos músculos. Em longo prazo a hipertrofia miofibrilar pode ser favorecida, desde que a suplementação seja associada a um trabalho muscular específico e a uma dieta adequada às necessidades do indivíduo.  Um fato é certo: a creatina ajuda a manter os níveis de ATP durante um esforço físico máximo, apesar de parecer não favorecer o aumento desses níveis no repouso.

A creatina geralmente é suplementada na forma monohidratada (solúvel em água) e, também na forma micronizada, que tem uma absorção mais rápida por apresentar partículas menores. Existem diversos esquemas de suplementação: os mais utilizados são aqueles constituídos por um período de carga, que dura de cinco a sete dias, seguido pelo período de manutenção, em que se usa uma menor quantidade da substância por um período maior, podendo chegar a dez semanas. Estudos recentes indicam que este período de manutenção não significa aumento de capacidade de armazenamento da creatina.

A captação de creatina pelo músculo é um processo saturável, ou seja, períodos longos e elevadas quantidades suplementadas não significam necessariamente aumento da capacidade de armazenamento: o conteúdo normal de creatina no músculo é de 125 mmol/Kg de matéria seca e o limite máximo de armazenamento fica em torno de 150-160 mmol/Kg. Além disso, alguns fatores podem afetar a capacidade de armazenamento: gênero (homens tem capacidade maior que mulheres);  composição da dieta (captação muscular é favorecida na presença de glicose e comprometida na presença de cafeína); composição de fibras musculares (fibras tipo II demonstram maior capacidade de armazenamento) e;  conteúdo muscular inicial de creatina (atletas vegetarianos e idosos apresentam resultados maiores com a suplementação deste tripeptídeo, pois, geralmente possuem uma quantidade de creatina menor nos músculos esqueléticos).

A supressão da síntese endógena de creatina pelo consumo oral já é conhecida mas, esta situação é revertida quando a suplementação é interrompida. Além disso, especula-se que os estoques de creatina se mantenham aumentados por, pelo menos, um mês após o término do período de carga.

Como qualquer suplemento, a prescrição da creatina deve se feita de forma individualizada: seu uso indiscriminado, assim como qualquer outra substância, pode favorecer o desequilíbrio orgânico.

Quais as funções do folato na gestação?

27 de abril de 2010

Fonte:www.gettyimages.com.br

O esforço para garantir o sucesso de uma gestação representa uma das funções fundamentais da vida. Os objetivos são quatro: a saúde da mulher durante a gravidez, a saúde do feto, o bem-estar materno para possibilitar a nutrição do recém nascido e, a proteção contra desenvolvimento de doenças crônicas durante a vida adulta. Gestantes representam um grupo com muitas particularidades na composição de sua dieta. Em decorrência das novas demandas nutricionais, o estado anabólico, isto é, o crescimento de tecidos e desenvolvimento celular, é dinâmico e constante e promove ajustes contínuos em relação a diversos nutrientes. Dentre estes, destacam-se o folato, que pode ser encontrado principalmente em vegetais em tons verdes escuros.

A necessidade diária de folato da gestante é de 600mcg. Por meio de uma dieta saudável e equilibrada, consegue-se em torno de 400mcg. Então, faz-se necessária a suplementação do ácido fólico neste período da vida. O Ministério da Saúde recomenda a suplementação com 400mcg de ácido fólico até a 14ª semana de gestação, com o objetivo de prevenir defeitos de formação do tubo neural. O ideal seria começar esta suplementação três meses antes da gestação, porém, esta conduta nem sempre é viável. Devemos nos atentar ao fato de que a recomendação é de apenas 600mcg/dia, e não de 1mg, 2mg ou 5mg, como vemos em diversos suplementos por aí. Muitas vezes profissionais de saúde recomendam um excesso de ácido fólico que, dentre outros problemas, pode causar a diminuição da absorção de zinco, favorecendo sintomas que são ditos como “típicos” da gravidez, como o intestino preso e a queda de cabelo.

A função do ácido fólico vai além da sua participação na formação do sistema nervoso: para replicarmos DNA adequadamente necessitamos de substâncias conhecidas como grupo metil, que podem ser encontradas em nutrientes como a vitamina B2, vitamina B6, colina, betaína, serina, metionina e, no ácido fólico, que é o principal doador de grupo metil.

Logo, o ácido fólico está intimamente ligado a replicação de DNA e este processo ocorre todas as vezes que as células são multiplicadas,  ou seja, durante toda a vida, o que inclui também a vida intra-uterina. Por isso, grupos de pesquisadores defendem a suplementação deste nutriente durante toda a gestação. Mas, mais uma vez, devemos buscar o equilíbrio: tanto a falta quanto o excesso de grupos metis podem favorecer mutações epigenéticas (mudanças nos genes dependentes de fatores externos) no DNA. E, essas mutações, por sua vez, podem favorecer o desenvolvimento de doenças crônicas durante a vida adulta.

Portanto, durante a gestação, como em todas as fases da vida, a alimentação deve ser equilibrada, na medida: tanto a falta quanto o excesso podem implicar em prejuízos para o desenvolvimento da criança que podem perdurar durante toda a sua a vida e, então, caímos naquele velho jargão de que a culpa é da mãe…